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De pai para filha: Mesa com Ava Rocha sobre Glauber dá início às mesas literárias da FliConquista
25 de setembro de 2025

Generoso, corajoso, revolucionário. Esses foram alguns dos adjetivos atribuídos por Ava Rocha ao seu pai, o cineasta Glauber Rocha, na mesa literária “Cinema é criador – a literatura não me liberta da solidão: Glauber Rocha por Ava Rocha”, que abriu a programação de debates nesta quinta-feira (25), segundo dia da FliConquista, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima.

Durante a conversa, destacou-se como o cinema de Glauber é uma obra de ruptura, marcada pela desobediência às estéticas hegemônicas que tentavam se impor a partir do Norte global.

Ele pleiteava uma criação verdadeiramente brasileira, a partir das nossas estéticas, de uma linguagem que traduzisse a força e as contradições do país. Glauber via o cinema como uma ferramenta de invenção, apostando em uma arte capaz de revelar o Brasil em toda a sua complexidade.

Herdeira dessa liberdade e signatária do pensamento revolucionário, Ava Rocha defendeu: “Todo mundo é uma cultura em si, não devemos ser reféns da indústria cultural. Não é loucura: é liberdade de ser”.

Na noite anterior, Ava havia se apresentado ao lado do pianista Chicão Montorfano no espetáculo “Tão do Ser Mar da Rocha – espetáculo glauberiano”. A força da performance reafirmou a herança de pai para filha, a liberdade criadora permanece.

“Você tem que ter uma consciência política, estética. Por todo esse processo, a minha sensação é que quanto mais radical eu for, mais livre serei. A gente tem que deixar de ser colonizado”, afirmou a artista.

Juventude em diálogo – Alunos do IEED (Instituto de Educação Euclides Dantas) acompanharam a atividade e preencheram a plateia do teatro. Entre eles, a estudante Dominique Ferreira contou que no começo estava tímida, mas decidiu se arriscar. “Eu queria saber um pouco mais sobre ela, com ela, e aí eu perdi a timidez e fui perguntar”, disse.

Com cabelos pintados de rosa, piercings no rosto e uma disposição alegre em falar, Dominique destacou a importância de encontros como esse. “É muito importante, porque a gente interage com figuras públicas e fica mais motivado a perceber que nessa cidade a gente pode crescer como artista.”

O efeito da FliConquista foi imediato: “Alguns colegas já foram ver livros, visitar os estandes. É bom porque estimula a gente a fazer o que gosta, como cantar, tocar. Quando a gente vê outras pessoas fazendo, dá vontade de continuar”, completou.

A presença de Ava também impactou a artista Eulá, que está produzindo um documentário sobre sua trajetória como pessoa com baixa visão. Ela confessou que mal conseguiu dormir após o espetáculo da noite anterior, mas fez questão de voltar ao teatro para acompanhar a mesa literária com Ava na manhã da quinta.

“Quando soube que ela viria, não pensei duas vezes. Eu não sabia que Glauber tinha uma filha e, quando descobri, falei: não posso perder essa oportunidade, porque ela deve ser no mínimo imensa”, contou.

Para ela, a experiência foi arrebatadora. “O espetáculo foi incrível. Ela ocupou o palco inteiro com liberdade, usando a voz e o corpo de forma inesperada. Isso me comoveu, porque a minha luta é poder estar nos espaços com segurança. Então qualquer coisa que essa mulher falasse, eu precisava ouvir.”

Eulá lembrou ainda de um estalo criativo ao escrever o roteiro de seu documentário: “Pensei: eu sou da cidade de Glauber Rocha, como assim? Isso me autorizou a criar, mesmo com minhas limitações técnicas. Glauber defendia o artista que sente e que cria a partir da sua sensibilidade. Isso me deu coragem.”

Da coragem de Glauber à liberdade de Ava, a mesa demonstrou que o legado não é estático: ele se move, se reinventa e ganha novas vozes.
Além disso, o encontro reafirmou Vitória da Conquista como território de arte e invenção.

FliConquista 2025 – A terceira edição da FliConquista integra o Programa Bahia Literária, a Rede de feiras e festas literárias do Estado da Bahia e conta com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria da Educação (SEC) e da Secretaria de Cultura (SECULT), via Fundação Pedro Calmon e do Governo Federal por meio de emendas parlamentares.

Repórter: Érika Camargo

Fotos: Thiago Gama