Notícias


Capitães de Areia: Jorge Amado e as infâncias roubadas em debate na FliConquista
27 de setembro de 2025

Na tarde deste sábado (27), a FliConquista trouxe ao público uma reflexão sobre a obra de Jorge Amado. A mesa “Cenas de Jorge Amado: a infância roubada em Capitães de Areia” reuniu a biógrafa premiada Josélia Aguiar e o romancista e professor Gildeci Leite, criador do conceito de “Literatura de Axé”, sob a mediação de Maria Angélica Fernandes. A conversa colocou a literatura como instrumento de memória, resistência e compreensão das desigualdades sociais.

Para Gildeci Leite, a obra de Amado revela camadas profundas de ancestralidade e espiritualidade. Jorge Amado foi reconhecido como Obá de Xangô e Ogã de Oxóssi e, enquanto deputado, atuou para garantir a liberdade religiosa e o respeito aos terreiros de candomblé.
“Jorge Amado é um homem de dentro, habitado da porteira para dentro. Não é apenas corpo, é membro da comunidade que fala com propriedade da mitologia afro-brasileira de forma alegre, denunciando as mazelas e tentando fazer com que as pessoas compreendam que todos os universos mitológicos, brancos ou negros, devem ser respeitados”, explicou Gildeci.

A discussão sobre Capitães de Areia trouxe à tona o conceito de “infâncias roubadas”, usado para denunciar o abandono de crianças negras e pobres, tratadas pelo Estado como problemas a serem isolados.
“São infâncias que não têm família, que vêm de classes menos favorecidas. Enquanto isso, as instâncias de cuidado e proteção favorecem apenas as crianças da classe dominante”, observou Gildeci.

Josélia Aguiar acrescentou reflexões sobre o acesso à cultura. Para ela, feiras e festas literárias são espaços de democratização da literatura, aproximando o público de obras e autores sem a necessidade de grandes centros urbanos.
“A literatura permite que as pessoas tenham contato com diferentes perspectivas e experiências de vida. Isso é essencial para a formação de leitores críticos e engajados”, disse.

A biógrafa também comentou sobre seu trabalho com a obra documental Três Obás de Xangô.
“O filme é um trabalho coletivo, que conta histórias de amizade, intolerância e afetos construídos como pontes. É uma narrativa polissêmica, que você pode ler de várias maneiras e que emociona”, afirmou.

Entre os participantes da plateia, o estudante Clériston Santos, vestibulando, compartilhou sua relação pessoal com o autor:
“Sou muito fã de Jorge Amado. Li Mar Morto primeiro e, desde então, fui criado por ele. Capitães de Areia me conecta com minha história familiar, porque encontrei o livro no armário da minha avó, que também o amava. A escrita de Amado é simples, mas poética, acessível e profunda ao mesmo tempo.”

A mesa demonstrou como a literatura de Jorge Amado permanece viva e relevante, revelando desigualdades, defendendo culturas marginalizadas e fortalecendo a consciência social. Ao discutir infâncias roubadas e trajetórias de resistência, a conversa reforçou a potência da literatura como instrumento de reflexão e transformação, evidenciando Amado como um obá da literatura, guardião da memória, da ancestralidade e da liberdade religiosa.

Texto: Érika Camargo
Fotos: Lua Ife

FliConquista 2025 – A terceira edição da FliConquista integra o Programa Bahia Literária, a Rede de Feiras e Festas Literárias do Estado da Bahia e conta com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria da Educação (SEC) e da Secretaria de Cultura (Secult), via Fundação Pedro Calmon, além do Governo Federal, por meio de emendas parlamentares.