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Corpos insubmissos discutem representatividade e resistência na FliConquista
27 de setembro de 2025

Na manhã deste sábado (27), foi realizada na FliConquista a mesa literária “Entre letras e cenas: corpos insubmissos”, que reuniu os escritores Priscilla Bacelar, Aurélio Nery e Tiago Correia, com mediação de Fernanda Protásio. O encontro trouxe à tona debates sobre literatura, identidade, sexualidade e resistência, em um diálogo atravessado por experiências pessoais e pela urgência de se ver representado nas narrativas.

Aurélio Nery contou que começou a escrever movido pela ausência de personagens LGBTQIA+ nas histórias que lia.
“Quando eu buscava esses livros, não achava em lugar nenhum da internet. Hoje a gente tem mais, ainda bem, por causa dos autores independentes”, disse. Foi a partir desse vazio que ele passou a construir mundos de fantasia e ficção científica com protagonismo LGBT, inclusive para o público adulto:
“Todo mundo precisa se ver representado em todas as idades. Não tem idade para ler sobre magia ou fantasia. Isso também faz parte desse conceito de insubmissão”.

Tiago Correia destacou que sua escrita nasce do incômodo diante da falta de livros que dialogassem com sua experiência como homem gay e pessoa com deficiência.
“Eu quero escrever o livro que nunca esteve na prateleira. O desejo é que, daqui a dez anos, um menino encontre os nossos livros e se perceba nesse lugar”, afirmou. Para ele, a literatura deve quebrar o silêncio e abrir espaço para que vozes historicamente silenciadas falem de si mesmas:
“A escrita parte muito desse lugar, do desejo de nos encontrarmos, de reconhecer nossas vozes”.

Já Priscilla Bacelar explicou que, em seus romances lésbicos, a sexualidade não é tratada como drama ou conflito central, mas como parte natural da vida.
“Eu sentia falta de ler histórias sobre mulheres que já são resolvidas com quem são. O foco não é mais sair do armário ou o primeiro amor, mas o que vem depois: carreiras, sonhos, amadurecimento. Minhas personagens são muito mais do que a sua sexualidade, porque antes de tudo eu quero falar de amor”.

A mediadora Fernanda Protásio ressaltou esse ponto como um fio condutor entre os três escritores:
“Vocês escrevem de maneira muito natural, sem dramatizar a homossexualidade ou a deficiência. Isso rompe com a lógica do mercado, que costuma vender a dor e a vitimização”.

O tema da erotização também atravessou a conversa. Aurélio, que recentemente lançou seu primeiro livro adulto, Desejos Perversos, contou que quis construir cenas de sexo que servissem à narrativa.
“Eu queria que o sexo ajudasse a desenvolver o personagem, não que fosse gratuito. A literatura erótica pode ter história, e não só cenas avulsas”.

Priscilla concordou, acrescentando que, em romances, o sexo faz parte do percurso das relações:
“Não tem como você construir um romance sem falar disso. Mas não é o centro da narrativa. O que eu faço é trazer a sexualidade de forma cotidiana, porque nós também vivemos, amamos e desejamos como qualquer pessoa”.

Tiago levou o debate para a poesia, destacando como o erotismo pode ser trabalhado na linguagem:
“Na poesia, uma palavra pode dizer muito mais. Eu gosto de lidar com esse cuidado, porque falar de amor e desejo também é um ato político. Sou muito mais do que um homem gay com deficiência, sou poeta, e minha poesia precisa refletir essa multiplicidade”.

Em entrevista, uma estudante que preferiu não se identificar comentou sobre a força desse encontro para ela:
“Para mim, esse momento foi muito importante. Eu não tenho muito convívio com esse tipo de fala. Eu estudo em um colégio muito tradicional e confessional e lá não se pode falar sobre isso em momento nenhum”, disse.

Quem também ressaltou a importância da mesa foi a professora Clélia Gomes dos Santos, de Ibiassucê. Para ela, o debate é necessário por provocar reflexões e desconstruir estereótipos.
“Sou mulher bissexual e acho que uma mesa como essa é fundamental porque nos faz ‘assuntar’, como diz Conceição Evaristo: ouvir o que os outros têm a dizer, pensar sobre isso e repensar nossas próprias posições. Esse é um espaço de representatividade, e quando você se vê em um evento desses, você entende o poder transformador da literatura”.

Ela acrescentou ainda que a FliConquista cumpre um papel social importante.
“Enquanto professora, eu dificilmente encontro livros que tragam essa temática para trabalhar em sala de aula. Por isso, acho que a função de uma feira literária também é essa: não só expor livros, mas transformar vidas. Se uma, duas ou três pessoas saírem daqui tocadas, já valeu a pena. É um soco no estômago, num bom sentido, porque faz a gente se reorganizar diante de tantos retrocessos que vivemos. Que a FliConquista siga firme, como um lugar de resistência, e que vida longa tenham os espaços de literatura e todos os artistas que se propõem a fazer arte”.

A insubmissão é também invenção de novas narrativas, capazes de deslocar olhares, romper silêncios e abrir espaço para que todos possam se reconhecer na literatura.

Texto: Érika Camargo
Fotos: Thiago Gama

FliConquista 2025 – A terceira edição da FliConquista integra o Programa Bahia Literária, a Rede de Feiras e Festas Literárias do Estado da Bahia e conta com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria da Educação (SEC) e da Secretaria de Cultura (Secult), via Fundação Pedro Calmon, além do Governo Federal, por meio de emendas parlamentares.