Generoso, corajoso, revolucionário. Esses foram alguns dos adjetivos atribuídos por Ava Rocha ao seu pai, o cineasta Glauber Rocha, na mesa literária “Cinema é criador – a literatura não me liberta da solidão: Glauber Rocha por Ava Rocha”, que abriu a programação de debates nesta quinta-feira (25), segundo dia da FliConquista, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima.
Durante a conversa, destacou-se como o cinema de Glauber é uma obra de ruptura, marcada pela desobediência às estéticas hegemônicas que tentavam se impor a partir do Norte global.
Ele pleiteava uma criação verdadeiramente brasileira, a partir das nossas estéticas, de uma linguagem que traduzisse a força e as contradições do país. Glauber via o cinema como uma ferramenta de invenção, apostando em uma arte capaz de revelar o Brasil em toda a sua complexidade.
Herdeira dessa liberdade e signatária do pensamento revolucionário, Ava Rocha defendeu: “Todo mundo é uma cultura em si, não devemos ser reféns da indústria cultural. Não é loucura: é liberdade de ser”.
Na noite anterior, Ava havia se apresentado ao lado do pianista Chicão Montorfano no espetáculo “Tão do Ser Mar da Rocha – espetáculo glauberiano”. A força da performance reafirmou a herança de pai para filha, a liberdade criadora permanece.
“Você tem que ter uma consciência política, estética. Por todo esse processo, a minha sensação é que quanto mais radical eu for, mais livre serei. A gente tem que deixar de ser colonizado”, afirmou a artista.
Juventude em diálogo – Alunos do IEED (Instituto de Educação Euclides Dantas) acompanharam a atividade e preencheram a plateia do teatro. Entre eles, a estudante Dominique Ferreira contou que no começo estava tímida, mas decidiu se arriscar. “Eu queria saber um pouco mais sobre ela, com ela, e aí eu perdi a timidez e fui perguntar”, disse.
Com cabelos pintados de rosa, piercings no rosto e uma disposição alegre em falar, Dominique destacou a importância de encontros como esse. “É muito importante, porque a gente interage com figuras públicas e fica mais motivado a perceber que nessa cidade a gente pode crescer como artista.”
O efeito da FliConquista foi imediato: “Alguns colegas já foram ver livros, visitar os estandes. É bom porque estimula a gente a fazer o que gosta, como cantar, tocar. Quando a gente vê outras pessoas fazendo, dá vontade de continuar”, completou.
A presença de Ava também impactou a artista Eulá, que está produzindo um documentário sobre sua trajetória como pessoa com baixa visão. Ela confessou que mal conseguiu dormir após o espetáculo da noite anterior, mas fez questão de voltar ao teatro para acompanhar a mesa literária com Ava na manhã da quinta.
“Quando soube que ela viria, não pensei duas vezes. Eu não sabia que Glauber tinha uma filha e, quando descobri, falei: não posso perder essa oportunidade, porque ela deve ser no mínimo imensa”, contou.
Para ela, a experiência foi arrebatadora. “O espetáculo foi incrível. Ela ocupou o palco inteiro com liberdade, usando a voz e o corpo de forma inesperada. Isso me comoveu, porque a minha luta é poder estar nos espaços com segurança. Então qualquer coisa que essa mulher falasse, eu precisava ouvir.”
Eulá lembrou ainda de um estalo criativo ao escrever o roteiro de seu documentário: “Pensei: eu sou da cidade de Glauber Rocha, como assim? Isso me autorizou a criar, mesmo com minhas limitações técnicas. Glauber defendia o artista que sente e que cria a partir da sua sensibilidade. Isso me deu coragem.”
Da coragem de Glauber à liberdade de Ava, a mesa demonstrou que o legado não é estático: ele se move, se reinventa e ganha novas vozes.
Além disso, o encontro reafirmou Vitória da Conquista como território de arte e invenção.
FliConquista 2025 – A terceira edição da FliConquista integra o Programa Bahia Literária, a Rede de feiras e festas literárias do Estado da Bahia e conta com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria da Educação (SEC) e da Secretaria de Cultura (SECULT), via Fundação Pedro Calmon e do Governo Federal por meio de emendas parlamentares.
Repórter: Érika Camargo
Fotos: Thiago Gama