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Anderson Shon e Daniel Cesart apresentam HQs negras e dialogam com jovens na FliConquista
25 de setembro de 2025

“Literatura é a arte de criar imaginários”, disse o escritor Anderson Shon, que esteve na FliConquista ao lado do ilustrador e também escritor Daniel Cesart. Juntos, eles levaram ao Espaço Gerações, na tarde desta quinta-feira (25), obras que dialogam com ancestralidade, afrofuturismo e cultura pop, dentro da Programação Juventudes da Feira.

Entre elas, esteve a HQ Estados Unidos da África, que reconta o mito do super-herói a partir de um viés afrocentrado. Na trama, um camaronês une o continente e se torna presidente de um país fictício. A proposta dialoga com outras obras dos autores, como Sob o Signo Ancestral, que narra a vida de um jovem na Ilha de Itaparica; Cuscuz Surpresa, tirinhas cheias de afeto; e O Sítio da Tia Naná, uma releitura baseada na obra de Monteiro Lobato em que o sítio se torna quilombo, com protagonismo para a personagem Tia Nastácia.

“A maior parte do que fazemos é letramento racial”, explicou Daniel. “Nosso trabalho é ressignificar narrativas, muitas vezes exploradas por brancos, colocando a nossa perspectiva”. Anderson completou: “Se a gente só apresenta a mesma coisa, o mundo segue igual. O objetivo é sair daqui com um incômodo, com uma pergunta. Isso já é vitória.”

A plateia reuniu estudantes da Escola Estadual do Campo da Cabeceira da Jiboia, no povoado da Limeira, zona rural de Conquista, que chegaram com entusiasmo para o encontro. Kelly Borges, aluna e poeta, contou que a experiência foi marcante. “Como eu sou negra, já sofri muito. Muitas vezes a gente tem medo de falar, de ser julgada. Eu queria saber deles como foi esse processo porque também gosto de escrever poesia e, às vezes, a gente tem medo do julgamento”, disse.

Os autores responderam com incentivo e partilharam vivências pessoais, gerando identificação. O encontro foi também inspiração para jovens artistas. A estudante Raquel, uma jovem criativa, com muitos colares e anéis, além de desenhos customizados por ela mesma na própria roupa, encontrou inspiração no diálogo. “Ver gente que trabalha com quadrinhos e criação de personagens inspira muito, porque não é fácil. É um trabalho às vezes desvalorizado, ainda mais hoje, com a inteligência artificial. Mas quando a gente encontra quem tem a mesma paixão, dá força para continuar.”

A professora Flávia Amaral Rocha, diretora da Escola Estadual da Cabeceira da Jiboia, na zona rural de Vitória da Conquista, destacou a importância do momento para os alunos: “Especialmente por estarmos em um contexto diferente da zona urbana, esse contato com autores é raro. Para muitos, foi um sonho realizado. Temos estudantes que querem escrever, que se inspiraram. Foi lindo, superou as expectativas. A feira está muito bem organizada e esse encontro foi muito significativo para nós.”

Para os autores, a energia do público também foi marcante. Daniel avaliou: “Foi uma das melhores plateias que já tive. Muito participativa. Para mim, a principal recompensa de fazer quadrinhos não é financeira, é essa troca”.

Anderson complementou: “Fiquei muito feliz. Os jovens estavam atentos, fizeram perguntas desafiadoras. Literatura é a arte de criar imaginários. Eu acho que vale a pena quando o jovem sai intrigado, com vontade de repensar”.

O encontro mostrou como a literatura pode ser uma chave para novos mundos. Da ancestralidade ao afrofuturismo, a mesa reafirmou a literatura como instrumento de transformação, onde jovens se enxergam, sonham e se autorizam a criar.

FliConquista 2025 – A terceira edição da FliConquista integra o Programa Bahia Literária, a Rede de feiras e festas literárias do Estado da Bahia e conta com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria da Educação (SEC) e da Secretaria de Cultura (SECULT), via Fundação Pedro Calmon e do Governo Federal por meio de emendas parlamentares.

Texto: Érika Camargo

Fotos: Thiago Gama